O edificado da cidade da Ria, como está à vista em outros casos, não ficou à margem das influências da corrente artística que floresceu entre os finais do século XIX e o princípio do século XX, no período reconhecido como a “Belle Époque”.
Adquirida pelo município local em 2004, já em estado avançado de degradação, aos herdeiros do Major Pessoa, nome pelo qual a casa é conhecida, foi alvo durante três anos de profundos trabalhos de reabilitação, adaptação e restauro, num investimento de 1,5 milhões de euros, para funcionar como pólo museológico e espaço de restauração.
Mário Sarabando Dias elaborou o projecto mas apressa-se a homenagear aquele a quem atribui a autoria do desenho da construção original (1904/1909), que foi o “mestre” Francisco Augusto da Silva Rocha. “Não há nenhuma razão fundamentada para dizer que há outros autores”, declara, contrariando quem dividiu tais responsabilidades com o afamado suíço Ernesto Korrodi, que se viria a radicar em Portugal, país onde deixou inúmeras obras.
A carreira deste arquitecto aveirense de 54 anos pertencente aos quadros da Câmara local esteve sempre muito ligada à reabilitação urbana de zonas antigas.
Integrou em 1985 o pioneiro Gabinete Técnico Local (GTL) da autarquia. Num tempo em que se demoliam edifícios notáveis “num piscar de olhos”, implementou as primeiras medidas de salvaguarda do património urbano aveirense.
Posteriormente veio a classificação pelo Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) da Casa Major Pessoa, entre outros exemplares de interesse.
No livro “O Mistério da Casa Pessoa”, do qual é autor, Mário Sarabando Dias lembra que começou a fazer as suas pesquisas sobre o emblemático edifício com vista a Ria, “muito antes de sonhar” que lhe caberia a si a responsabilidade técnica pela reabilitação, anos mais tarde, numa intervenção pública que só terá paralelo localmente com a reconstrução do antigo edifício da Capitania do Porto de Aveiro, junto ao canal central, também da autoria de Silva Rocha.
Numa visita guiada pela Casa Major Pessoa, que surpreende logo pela decoração da cantaria e ferraria da fachada, Mário Sarabando Dias deixa-se levar pelo “fascínio” que sente pela obra que considera “um projecto muito elaborado e erudito”.
No rés-de-chão, despojado do mobiliário original, entregue aos antigos proprietários, sobressaem as portas restauradas e os painéis de azulejos. Esta é, de resto, uma marca muito característica da Arte Nova aveirense com assinatura de reputados ceramistas locais, como Carlos Branco e Licínio Pinto, da fábrica Fonte Nova e de Jorge Colaço, num conjunto que “se expõe a si mesmo” para gáudio de quem ali usufruir do futuro salão de chá.
O pátio das traseiras, orientado para a Praça do Peixe, permite descobrir outra fachada não de menor primor artístico e uma requintada calçada portuguesa, totalmente recuperada.
De volta ao interior, o acesso superior é feito por uma escada em caracol em ferro trabalhado. E é no primeiro andar que reside um dos segredos da casa.
Construída originalmente em 1904 a pedido de Mário Belmonte Pessoa, quando casou pela segunda vez, viria a ser ampliada três anos depois numa operação de engenharia civil pouco habitual para a época.
As fachadas foram parcialmente desmontadas, pedra por pedra, para comportarem o novo piso intermédio e depois, remontada a parte correspondente ao telhado, em cima da parte nova, ajustando-se tudo ao pormenor. “Maravilhou-me tudo isto ter acontecido no princípio do séc. XX em respeito total pela obra feita anteriormente”, confessa Mário Sarabando Dias.
O sótão, agora unido ao segundo andar, com mais pé-direito, foi por si concebido para acolher eventos e exposições.
“O autor e o empreendedor”
A relação criada entre “o autor” Silva Rocha e “o empreendedor” Mário Belmonte Pessoa resultou, assim, “na mais brilhante e mais expressiva das experiências modernistas concretizadas no princípio do sec. XX em Aveiro” onde subsistem vários outros exemplares inspirados na Arte Nova.
O dono da casa era pessoa afortunada e cosmopolita que dividia o seu tempo por Aveiro, S. Tomé e Príncipe, Paris e Suíça, trazendo das viagens influências culturais e gostos artísticos.
Farmacêutico com negócios de café e cacau, ostentava um título que remete para carreira militar interrompida ou às suas actividades nas roças de S. Tomé.
Mário Sarabando Dias prepara novas revelações. Para além do talento técnico no edifício, Silva Rocha deixou inscritas imagens e geometrias simbólicas, sobretudo nas fachadas, só parcialmente desvendadas.
No topo da casa, está uma ave de rapina em pedra, provavelmente uma águia-sapeira muito comum na Ria, a agarrar um peixe em cima de uma carapaça de tartaruga, elementos que têm associadas cargas esotéricas.
“Os segredos e mistérios da Casa Major Pessoa não acabam aqui”, lê-se nas derradeiras páginas da primeira parte da investigação feita pelo arquitecto Mário Sarabando Dias.
Perfil de Mário Sarabando Dias
Natural de Aveiro, onde nasceu em 1954, Mário Sarabando Dias, depois de cursar Belas Artes (Porto e Lisboa) licenciou-se em 1983 na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. Ingressou nos quadros da Câmara de Aveiro dois anos depois, exercendo funções na área do Planeamento, Urbanismo e Arquitectura.
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